O Brasil registrou um empréstimo rural de R$ 100.000 (US$ 19.600) garantido por 10 vacas leiteiras identificadas digitalmente, criando uma das primeiras transações de crédito formal do país usando gado tokenizado como garantia.
Resumo
- Dez vacas tokenizadas avaliadas em R$ 120.000 garantiram uma nota de crédito rural de R$ 100.000 registrada na B3.
- As coleiras inteligentes da Cowmed monitoram saúde, comportamento e localização, reduzindo a dependência dos credores em inspeções físicas na fazenda.
- A Target FIDC espera que o gado monitorado melhore os valores das garantias, evitando duplicidade de penhores entre credores.
A Fazenda Engenho Velho, em Imbituva, Paraná, penhorou animais avaliados em R$ 120.000 (US$ 23.500). A Target FIDC estruturou a transação e a registrou através dos sistemas da B3.
BMP Sociedade de Crédito Direto forneceu os fundos por meio de uma Nota de Produto Rural Financeira, conhecida localmente como CPR-F. A BMP posteriormente transferiu os direitos de crédito para a Target FIDC. Cada vaca recebeu uma identidade criptografada única vinculada aos dados coletados pelas coleiras inteligentes da Cowmed. O sistema registra informações de saúde, comportamento e localização, permitindo que o credor acompanhe a garantia sem depender apenas de inspeções programadas.
Como funciona o empréstimo de gado tokenizado
Uma CPR-F permite que um produtor rural levante dinheiro e pague o valor em dinheiro no vencimento. A B3 explica que a lei brasileira exige que as CPRs físicas e financeiras sejam registradas em uma entidade autorizada pelo Banco Central do Brasil para validade e eficácia. O registro confirma as características da nota e cria um registro que credores e partes autorizadas podem consultar.
Neste negócio, a identidade digital não transformou as vacas em tokens criptográficos livremente negociados. Em vez disso, vinculou cada animal ao contrato de crédito e ao seu registro na B3. Relatórios públicos não identificaram uma blockchain pública, padrão de token ou mercado secundário para os registros do gado. A estrutura, portanto, usa a tokenização principalmente para identificação, monitoramento e controle de garantias, em vez de negociação aberta.
Coleiras inteligentes reduzem lacunas de informação para credores
As coleiras da Cowmed monitoram cada vaca 24 horas por dia e traduzem dados comportamentais em alertas que cobrem saúde, reprodução, nutrição e estresse térmico. O modelo de empréstimo usa esses registros para mostrar que um animal permanece vivo, localizado na fazenda e em condição consistente com o valor atribuído. Isso reduz a necessidade de verificações físicas repetidas durante o período de financiamento.
O diretor da Target FIDC, Humberto Brenner, disse que os credores tradicionalmente aplicavam grandes descontos ao gado porque não tinham informações confiáveis sobre localização e condição. Uma vaca no valor de R$ 20.000 poderia receber um valor de garantia de apenas R$ 8.000. O monitoramento contínuo pode suportar um valor mais próximo do preço de mercado, embora a decisão final de empréstimo e o desconto permaneçam com o credor.
A estrutura também visa impedir que um animal garanta vários empréstimos. Cada vaca recebe um código separado vinculado à transação registrada. Se um animal morrer, o agricultor pode substituí-lo digitalmente por outra vaca elegível. A operação inclui cerca de 20% de animais extras como reserva para manter a cobertura da garantia durante o empréstimo.
Garantia tokenizada abre outra rota de crédito agrícola
O CEO da Cowmed, Thiago Martins, disse: "Pegamos a vaca, que é um ativo real e tangível, e a transformamos em um ativo digital respaldado por um código único monitorado em tempo real." Ele disse que o modelo oferece aos agricultores outra opção de garantia durante um período de crédito agrícola restrito. O registro digital também dá à empresa de financiamento uma maneira de verificar mudanças durante o empréstimo.
Os recursos podem apoiar capital de giro, compras de equipamentos ou outras despesas agrícolas. A Target FIDC está avaliando mais quatro produtores brasileiros e pretende organizar R$ 5 milhões em empréstimos através do modelo até o final de 2026. Essas metas permanecem planos em vez de transações concluídas, e o uso mais amplo dependerá da demanda dos credores, preços e desempenho dos primeiros empréstimos.
A Cowmed disse que o modelo de financiamento pode alcançar parte das cerca de 100.000 vacas leiteiras cobertas pela base de monitoramento relevante, com valor estimado acima de R$ 2 bilhões. A empresa espera que cerca de 20% dos produtores desse grupo considerem o produto, o que poderia apoiar cerca de R$ 400 milhões em crédito.
Brasil expande tokenização de ativos do mundo real
O negócio de gado chega enquanto a B3 expande seu papel na infraestrutura de ativos digitais. Como o crypto.news noticiou anteriormente, a bolsa delineou planos para uma plataforma de tokenização de ativos do mundo real e uma stablecoin atrelada ao real brasileiro. A B3 também desenvolveu ferramentas de registro digital para crédito agrícola, incluindo sistemas projetados para identificar garantias e reduzir penhores duplicados.
O mercado de tokenização do Brasil também inclui dívidas corporativas, fundos de investimento e ativos agrícolas. A Tether recentemente investiu US$ 20 milhões no Mercado Bitcoin para apoiar ativos tokenizados, pagamentos, empréstimos e mercados de capital onchain. Enquanto isso, o crypto.news informou que os ativos tokenizados do mundo real atingiram cerca de US$ 34 bilhões globalmente em 2026, liderados por títulos do Tesouro, mas cobrindo cada vez mais commodities, crédito privado e outros ativos.
O empréstimo garantido por vacas permanece pequeno em comparação com esses mercados. Ele fornece um teste prático de se dados verificados de ativos físicos podem melhorar os valores de garantia e expandir o crédito rural. O pagamento do agricultor, os procedimentos de substituição de animais, a precisão do monitoramento e a execução em caso de inadimplência determinarão se as instituições financeiras adotarão o modelo em maior escala.






