O mercado cripto do Brasil entrou em uma reestruturação regulatória, com estimativas do setor indicando que menos de 10% das empresas que atualmente operam no país provavelmente buscarão autorização do Banco Central antes do prazo de outubro.
Resumo
- Menos de 10% das empresas de cripto que operam no Brasil devem buscar autorização do banco central, segundo estimativas do setor.
- Apenas 20 a 25 empresas podem solicitar autorização, enquanto cerca de 10 devem obter uma licença definitiva.
- Os prestadores de serviços cripto existentes têm até 30 de outubro para iniciar o processo de autorização ou enfrentarão o encerramento de suas operações em 30 dias.
- Os requisitos de capital podem variar de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, além de obrigações de governança, segurança, auditoria e conformidade.
- Várias empresas já fecharam, consolidaram operações ou transferiram clientes de varejo à medida que o mercado se ajusta às novas regras.
O Valor Investe noticiou que pessoas que acompanham de perto o processo de licenciamento estimam que o Brasil tem entre 150 e 200 empresas nacionais e estrangeiras prestando serviços de ativos virtuais, embora algumas estimativas do setor coloquem o número mais próximo de 300. Apenas 20 a 25 devem ter o capital, a estrutura ou o interesse necessários para solicitar, enquanto cerca de 10 podem obter autorização definitiva como prestadoras de serviços de ativos digitais, conhecidas localmente como PSAVs.
As empresas que prestavam serviços de ativos virtuais antes de as novas regras entrarem em vigor em fevereiro têm até 30 de outubro para protocolar a primeira etapa de seu pedido de autorização. As empresas que não entrarem no processo até o prazo terão 30 dias para encerrar suas operações.
As estimativas permanecem não oficiais, e o número de pedidos só ficará claro quando o período de protocolo se encerrar. Instituições financeiras que já possuem licença bancária do Banco Central não precisam de autorização separada para operar no setor, enquanto gestores de fundos permanecem sob o arcabouço regulatório da Comissão de Valores Mobiliários do Brasil, ou CVM.
Licenciamento cripto no Brasil pode deixar cerca de 10 empresas autorizadas
Várias empresas de cripto já se reestruturaram ou se retiraram do Brasil à medida que o prazo de autorização se aproxima.
A Bitnuvem encerrou suas operações este ano, citando custos operacionais mais altos e exigências regulatórias entre os motivos de sua decisão. A NovaDAX seguiu em junho, encerrando sua operação brasileira sob um acordo que permitiu aos clientes migrarem para a Foxbit.
A Digitra.com posteriormente fechou seu negócio de varejo e direcionou os clientes para a Foxbit, enquanto o BTG Pactual incorporou sua plataforma cripto Mynt às plataformas existentes do banco. A medida trouxe as atividades de ativos digitais do grupo para dentro da estrutura existente do BTG Pactual.
A Bitso mudou seu modelo de varejo brasileiro no início de setembro por meio de uma parceria com o Mercado Bitcoin. Os clientes de varejo no país estão sendo direcionados a investir por meio do Mercado Bitcoin, enquanto a Bitso está concentrando seu negócio local em infraestrutura e serviços institucionais.
A Coinext subsequentemente anunciou que encerraria sua operação de varejo após quase uma década, terminando os serviços de negociação e custódia de cripto para esses clientes. A Coinext Asset, seu negócio de gestão de ativos institucionais, continuará operando.
Diferentemente de algumas das saídas anteriores, a Coinext citou diretamente o novo ambiente regulatório ao explicar sua decisão. A empresa disse que avaliou os requisitos para permanecer no mercado, realizou discussões com potenciais parceiros e considerou alternativas, mas não encontrou nenhuma opção viável.
Participantes do setor citados pelo Valor Investe disseram que mais transferências de carteiras de clientes estão em negociação, o que significa que mais anúncios de reestruturação podem surgir antes do fim do período de transição.
Requisitos de capital elevaram o limiar de entrada
Os requisitos de capital tornaram-se uma das principais questões enfrentadas pelas empresas que decidem se buscam autorização.
Durante a Consulta Pública 109/2024, o Banco Central propôs capital social mínimo de R$ 1 milhão para intermediários de ativos virtuais, como exchanges, R$ 2 milhões para custodiantes e R$ 3 milhões para corretoras que exercem ambas as atividades.
As regras finais anunciadas em novembro estabeleceram requisitos consideravelmente mais altos. Dependendo das atividades e do perfil de risco de uma empresa, o capital exigido pode variar de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões.
O processo de autorização vai além do capital. As empresas devem atender a requisitos que abrangem governança, controles internos, gestão de riscos, segurança, procedimentos de prevenção à lavagem de dinheiro, certificação técnica, auditorias e relatórios regulatórios periódicos.
O Brasil aprovou outro conjunto de regras de capital e risco em julho, conforme noticiado anteriormente pelo crypto.news. Os requisitos começam a entrar em vigor em janeiro de 2027 e, eventualmente, colocarão os prestadores de serviços de ativos virtuais no segmento regulatório S4 até junho de 2028. Instituições menores do segmento S5 não poderão mais prestar serviços de ativos virtuais.
O arcabouço de licenciamento já exige que os candidatos e as empresas que buscam renovação de licença apresentem relatórios de auditoria independentes. Os auditores devem avaliar áreas como controles de prevenção à lavagem de dinheiro, segregação de ativos de clientes, gestão interna de riscos e programas de conformidade dos funcionários.
As exchanges licenciadas enfrentam outro requisito a partir de 1º de janeiro de 2027, quando deverão fornecer relatórios diários de suficiência de ativos demonstrando que possuem ativos suficientes para cobrir riscos operacionais e de segurança.
O cronograma regulatório tem gerado preocupações no setor
A diretora de políticas públicas e regulatórias para a América Latina da Ripple, Isabel Sica Longhi, disse que a pressão não se limitava à substância dos requisitos. Ela apontou o ritmo com que novas medidas foram introduzidas enquanto as empresas ainda estavam se adaptando às regras anteriores.
“O maior problema foi esse sequenciamento, em que tudo veio muito rapidamente, sem sequer esperar para ver se os riscos que o Banco Central pretendia abordar com as Resoluções 519, 520 e 521 seriam realmente tratados antes de ajustar as regras”, disse Longhi, segundo o Valor Investe.
Executivos citados no relatório disseram que o Banco Central estabeleceu um alto patamar regulatório após problemas envolvendo empresas de fintech. Fontes apontaram fraudes, ataques cibernéticos, uso de contas por terceiros e estruturas de controle frágeis como questões que contribuíram para a abordagem do regulador.
Os requisitos de segurança continuaram a se expandir. Em agosto, o Banco Central introduziu regras exigindo que certas transferências de criptomoedas acima de US$ 10.000 sejam retidas por até 24 horas a partir de 1º de janeiro de 2027, quando os fundos forem enviados para prestadores de serviços de ativos virtuais estrangeiros ou carteiras de autocustódia. Os prestadores podem liberar as transações mais cedo após concluírem a revisão de risco exigida.
O regulador desenvolveu separadamente um sistema de alerta de ameaças cripto em tempo real com a Hypernative, depois que atacantes converteram parte dos recursos de um grande ataque cibernético em criptomoeda. A Foxbit e o Mercado Bitcoin estavam entre as empresas que se preparavam para participar da rede de monitoramento de ameaças.
Empresas de criptomoedas menores enfrentam custos de conformidade mais altos
As empresas que devem permanecer no Brasil não se opuseram uniformemente a uma supervisão mais rigorosa. Um executivo citado pelo Valor Investe descreveu a conformidade como uma parte necessária de operar em um mercado regulado, dizendo que “regulação não é algo para se lamentar, você a cumpre”.
O executivo disse que regras claras e a supervisão do Banco Central eram necessárias para que o setor amadurecesse, ao mesmo tempo em que argumentou que a calibração escolhida poderia reduzir a inovação ao excluir empresas menores e modelos de negócios incapazes de absorver os custos regulatórios.
Longhi também descreveu certa redução no número de empresas como uma parte natural da regulação, mas traçou uma distinção entre remover operadores inadequados e excluir negócios simplesmente por causa de seu tamanho.
“O enxugamento do mercado é natural e deveria acontecer de qualquer forma”, disse ela. “O que não é natural, se acontecer, é impedir que o mercado exista e remover pequenos participantes simplesmente porque são pequenos participantes.”
Os bancos brasileiros, por sua vez, têm ampliado o acesso a ativos digitais enquanto operam sob suas estruturas regulatórias existentes. Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Nubank ampliaram os serviços de criptomoedas desde 2025, enquanto registros do Banco Central de março mostraram que os bancos não mantinham ativos virtuais em seus próprios balanços. O Nubank ofereceu 28 ativos digitais a mais de 7 milhões de clientes de criptomoedas, enquanto o Itaú ofereceu 15 ativos por meio de sua plataforma de investimentos.
A Mercado Bitcoin continuou se expandindo durante a transição regulatória. A Tether investiu US$ 20 milhões na empresa em julho, como parte de uma rodada de financiamento estratégico focada em ativos tokenizados, pagamentos, empréstimos e mercados de capitais onchain. A Mercado Bitcoin afirmou na época que atendia 4,5 milhões de usuários e havia emitido mais de R$ 2 bilhões em ativos tokenizados.
O número final de empresas que entrarão no processo de autorização do Banco Central ficará mais claro após 30 de outubro. Até então, participantes do setor citados pela Valor Investe esperam mais fechamentos, migrações de clientes, fusões e parcerias, à medida que as empresas decidem se buscam sua própria autorização ou operam por meio de outras estruturas reguladas.






