Em resumo
- O Brasil ocupa o 5º lugar mundial em uso de criptomoedas e movimentou US$ 318,8 bilhões on-chain em um ano, de acordo com um novo relatório da CertiK.
- As empresas de ativos virtuais devem solicitar autorização ao Banco Central até 30 de outubro de 2026, com auditoria independente anexada.
- Hackers e ladrões levaram US$ 1,32 bilhão de criptomoedas somente no primeiro semestre de 2026.
O Brasil é um dos maiores mercados de criptomoedas do mundo, e seu regulador acaba de definir uma data limite para colocá-lo sob supervisão formal. Um novo relatório da empresa de segurança blockchain CertiK detalha o que as regras exigem e por que elas são importantes para as empresas—e os usuários—dentro desse mercado.
O Brasil ocupa o quinto lugar global em adoção real de criptomoedas, de acordo com dados da Chainalysis citados no relatório, e recebeu US$ 318,8 bilhões em valor on-chain nos doze meses até junho de 2025. Quase um terço de toda a atividade latino-americana fluiu através de carteiras e plataformas brasileiras—aproximadamente o dobro dos próximos dois mercados, Argentina e México, combinados.
🇧🇷 O mercado de criptomoedas do Brasil está entrando em uma nova era.
Com o prazo de autorização de 30 de outubro de 2026 se aproximando, as VASPs enfrentam uma mudança fundamental: conformidade não é mais sobre promessas—é sobre provar segurança, governança e prontidão operacional.
Nosso mais recente relatório Intel3D… pic.twitter.com/V5YPpKy6IB
— CertiK (@CertiK) 10 de agosto de 2026
O regime é baseado na Lei 14.478/2022, o Marco Legal dos Ativos Virtuais, e entrou em foco em 10 de novembro de 2025, quando o Banco Central do Brasil (BCB) publicou três resoluções de uma só vez. Juntas, elas definem quem deve ser licenciado, estabelecem pisos de capital e conectam as criptomoedas às regras cambiais do país.
O que as regras realmente exigem
Qualquer empresa que permita que clientes negociem, mantenham ou enviem criptomoedas—um provedor de serviços de ativos virtuais, ou VASP—deve solicitar autorização até 30 de outubro de 2026. O pedido deve incluir um "relatório de garantia razoável" de uma firma de auditoria registrada no regulador de valores mobiliários, atestando que os controles de combate à lavagem de dinheiro e sanções da empresa realmente funcionam. Dizer que está em conformidade não é mais suficiente; uma parte independente tem que confirmar.
Os custos de entrada não são pequenos. O capital mínimo varia de aproximadamente R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões (cerca de US$ 2 milhões a US$ 6,7 milhões), dependendo da categoria de licença, e o BCB proíbe operadores de usar espaços de coworking como sede registrada. O relatório estima que cerca de 120 provedores atualmente atendem o mercado—a maioria sem licença formal.
Empresas estrangeiras que atendiam o Brasil a partir de paraísos fiscais offshore agora precisam trazer suas operações para o país em até 270 dias. O perímetro é preciso, e o relatório é direto sobre seu propósito: acabar com a era de um site em português, liquidez global e nenhuma presença local.
Por que o Banco Central está agindo agora

O Brasil é, na frase do relatório, uma "Nação de Stablecoins". Cerca de 80% do volume de cripto declarado passa por tokens atrelados ao dólar; só a USDT responde por 88,7% desse fluxo, e a atividade total de stablecoins atingiu R$ 1,13 trilhão entre 2019 e 2025. Como o Decrypt noticiou anteriormente, a USDT da Tether já pode ser sacada em 24.000 caixas eletrônicos em todo o país, mesmo com o aperto regulatório do país em andamento há anos, desde fechamentos de exchanges até a implementação de caixas eletrônicos.
E essa dependência, direta ou indireta, de dinheiro estrangeiro é a razão pela qual o Banco Central está mais envolvido com cripto do que qualquer outro regulador. "Quando quatro em cada cinco reais em cripto passam por um instrumento atrelado a uma moeda estrangeira, o fenômeno deixa de ser uma questão de proteção ao consumidor e se torna uma questão de política monetária", argumenta a CertiK. "Esse único fato explica muito do que se segue neste relatório: por que é o Banco Central, e não o regulador do mercado de capitais, que lidera o regime; por que o câmbio e os fluxos transfronteiriços estão no centro das regras; e por que as stablecoins lideram a próxima onda regulatória."
De acordo com o próprio rastreamento Hack3d da CertiK, que o Decrypt cobriu, US$ 1,32 bilhão saiu da indústria devido a hacks e exploits em 344 incidentes no primeiro semestre de 2026. Comprometimentos de carteiras responderam por US$ 444,5 milhões disso; phishing levou US$ 366,3 milhões. Os dois maiores golpes—Kelp DAO com US$ 291 milhões e Drift Protocol com US$ 285 milhões—vieram de falhas operacionais e de infraestrutura, em vez de contratos inteligentes quebrados.
Marcos Rocha, da Veirano Advogados, um escritório de advocacia que assessorou os registros, disse à CertiK que o mercado subestimou o trabalho. "O problema mais comum que observamos é a subestimação da complexidade e do tempo envolvidos na preparação de um pedido de autorização", disse ele. Ele acrescentou que "a revisão será minuciosa, detalhada e altamente técnica".
Antônio Neto, Head de Crescimento LATAM da Solana Foundation, descreveu uma tendência crescente em direção a operadores licenciados. "O que estamos vendo como a primeira onda real são projetos escolhendo operar sob um PSAV autorizado em vez de buscar sua própria licença", disse ele. Mais adiante no relatório, ele argumentou que o "mercado brasileiro está estruturalmente migrando para o trilho regulado".
O piso de capital e o gargalo de garantias remodelarão o campo. A tese do relatório é que uma licença se torna um ativo, e a aquisição de um operador local já autorizado se torna o caminho rápido para entrantes estrangeiros. Ele aponta para o mesmo padrão após o MiCA da Europa e os regimes VARA de Dubai, onde o volume não licenciado migrou para os sobreviventes.
Há zonas cinzentas que o relatório sinaliza claramente, incluindo carteiras não custodiais, front-ends DeFi e valores mobiliários tokenizados, que o regulador de valores mobiliários (a CVM) diz continuarem sendo seu território, independentemente do blockchain subjacente. Uma ação tokenizada, afirmou a CVM, ainda é uma ação.
O veredito do relatório explica que o mercado brasileiro é "um no qual a capacidade de provar substitui a capacidade de prometer".
Para os cerca de 120 provedores que agora atendem usuários brasileiros, o pedido deve chegar ao Banco Central até 30 de outubro de 2026, acompanhado de um relatório de garantia independente.






